Expansão criminosa: Rio de Janeiro abriga ao menos 152 traficantes “forasteiros” de outros estados — maioria vinda do Pará
Expansão criminosa: Rio de Janeiro abriga ao menos 152 traficantes “forasteiros” de outros estados — maioria vinda do Pará
Rocinha — Foto: Fabiano Rocha
O Rio de Janeiro tornou-se um verdadeiro ponto de convergência do crime organizado nacional. Um levantamento exclusivo da Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil, obtido pelo jornal Extra para a série especial “Conexões do Crime”, revela que 152 traficantes oriundos de diferentes estados brasileiros encontram-se atualmente abrigados em grandes complexos de favelas do estado.
A maior concentração de criminosos vem do Pará, com 78 identificados, mas há registros expressivos também de foragidos provenientes do Amazonas (21), Bahia (18), Ceará (10), Alagoas (8) e Acre (7), entre outros. A Polícia Civil, contudo, alerta que o número real pode ser ainda mais elevado, uma vez que diversos suspeitos permanecem sem identificação formal, especialmente os vindos de Minas Gerais, Espírito Santo e Paraíba.
Uma nova geografia do crime
A presença desses “forasteiros” em território fluminense revela um cenário de integração entre facções e uma reconfiguração preocupante do mapa criminal brasileiro. O fenômeno está diretamente relacionado à expansão do Comando Vermelho (CV), que, segundo o levantamento, abriu “franquias” em 25 estados e no Distrito Federal, rivalizando com a abrangência nacional do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Nos bastidores dessa teia criminosa, as penitenciárias federais e a atuação de advogados ligados ao crime têm desempenhado papel crucial na comunicação entre líderes de facções espalhados pelo país. Essa estrutura de “sintonia”, como é chamada, tem permitido o fortalecimento de alianças e o controle remoto de territórios a partir do Rio de Janeiro.
Proteção, status e aprendizado criminal
O levantamento mostra que os traficantes vindos de outros estados buscam refúgio, prestígio e aprendizado nas comunidades dominadas pelo CV. Em troca, a facção carioca amplia sua influência nacional, fortalecendo rotas de tráfico e de escoamento de armas. Essa “migração do crime” tem sido descrita por especialistas como uma aliança de conveniência, na qual todos os lados saem ganhando — exceto, claro, o Estado e a sociedade.
“Não é mais apenas segurança pública, é soberania nacional”
Para Carlos Antônio Luiz de Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional da Polícia Civil do Rio, a situação ultrapassa as fronteiras da segurança pública e ameaça diretamente a estabilidade institucional do país:
“Não se trata apenas das disputas no Rio de Janeiro. Hoje, o Comando Vermelho disputa o Brasil com o PCC. Em pouco tempo, não estaremos mais discutindo apenas segurança pública, mas sim soberania nacional e quem, de fato, manda no país”, alerta o delegado.
O cenário exposto pela série Conexões do Crime é alarmante: o Rio de Janeiro, historicamente marcado pela presença de facções, agora se transforma em centro de treinamento, refúgio e articulação estratégica do crime organizado nacional, consolidando-se como um epicentro da criminalidade brasileira — um tabuleiro onde o poder é disputado não apenas por armas, mas por influência, alianças e território.

Rocinha — Foto: Fabiano Rocha
